ENCONTROS DE ARTE EDUCAÇÃO - FEVEREIRO

ENCONTROS DE ARTE EDUCAÇÃO

"NARRATIVAS LÚDICAS DA INFÂNCIA - A música e o ritmo, O corpo e a dança, A escuta e o brincar"

EM BREVE!!!

EDUCADORES, PAIS, ARTISTAS, ESTUDANTES E TODOS OS INTERESSADOS EM ARTE, EDUCAÇÃO E LUDICIDADE ESTÃO CONVIDADOS!


Abordando a importância do reconhecimento do brincar como linguagem própria e fundamental da criança e meio por excelência para a construção de conhecimentos sobre si, sobre a relação com o outro e as coisas do mundo. Serão apresentadas aos participantes as contribuições da brincadeira para o desenvolvimento integral, bem como questões presentes na sociedade contemporânea que impedem a concretização de uma infância plena e permeada pela ludicidade.

Para mais informações acesse: www.ateliegiramundo.com ou envie uma mensagem para contato@ateliegiramundo.com

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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

As atividades lúdicas como um diferencial na diminuição da agressividade no recreio




Caracterizado como um tempo escolar improdutivo, o recreio ainda é desvalorizado como tempo de produção de cultura, mas os usos do recreio pelos sujeitos escolares (alunos, professores, funcionários) revelam as necessidades e flexibilidades que este possui, não significando que o recreio não contenha apenas regras fixas e punições demarcadas. Assim, o recreio é tempo de múltiplas interações, jogos de interesses e de conflitos na escola, pois os sujeitos não perdem a sua capacidade de indignação, de produção de brincadeiras, ainda que a escola se movimente no sentido da repressão.
Ao criar o recreio, a escola não o fez sem objetivos, impondo-lhe determinadas regras para que este fosse também mais um elemento escolar que pudesse ser utilizado para atender seus anseios educativos. O recreio possui seu tempo bem delimitado: início–fim, demarcados pela sirene. Mas as crianças, (re)produtoras de práticas lúdicas conseguem fazer com que não haja somente um começo e um término desse tempo, transformam esse espaço num momento de correria, tumultos, brigas e violência.
Na hora do intervalo os alunos interagem com o mundo, permitindo que os mesmos vão aos poucos desvendando o mundo adulto; e para que isso ocorra com sucesso, é preciso que o conhecimento a ser construído através do brinquedo não seja descontextualizado do mundo real, ou seja, deve-se aproveitar as experiências de vida da criança e através dela, propor situações que possam unir o jogo, o brinquedo e a brincadeira à construção do conhecimento.
Vygotsky também é um importante teórico, pois em suas teses sustenta que:
Numa visão sociológica da questão disciplinar, poderíamos dizer que a essência da democracia estaria em substituir o respeito unilateral pelo respeito mútuo. Assim sendo, a formação do futuro cidadão, deverá ser baseada numa disciplina tendo como base à cooperação, rumo a autonomia. Neste sentido, Piaget ainda afirma que “a critica nasce da discussão, e só é possível entre iguais: portanto, só a cooperação realizará o que a coação intelectual é incapaz de realizar”. (PIAGET, 1996; p. 298-299).
Portanto, nas atividades, a criança tem a oportunidade de interagir com pessoas e objetos, liberar sua criatividade, explorar seus limites e adquirir repertórios comportamentais / afetivos de forma reforçadora e prazerosa.
Passando por tudo isto nas atividades escolares a criança passa por um processo de transformação interior, que é facilmente constatado dentro da sala de aula, onde a criança torna-se capaz de questionar mais, de não ter vergonha de ‘errar’, de saber perder um jogo e de saber esperar por sua vez.
Metodologia
Metodologia adotada será baseada em bibliografias.
A primeira etapa para a implantação do projeto será o levantamento de dados utilizando-se um questionário aberto, com os alunos.
1- O que você tem achado do recreio?
2- O que incomoda você no recreio?
3- De que você costuma brincar na hora do recreio?
4- Você tem brincado com colegas de outras turmas? Por quê?
5- Que brincadeiras ou jogos você gostaria que tivesse no recreio?
6- Você gostaria de aprender outras brincadeiras e jogos para a hora do recreio?
A etapa seguinte para enriquecer o projeto é ampliar a pesquisa com algumas atividades bem simples.
1- Entrevista com pais, avós e tias levantando brincadeiras e jogos de outras épocas, e fazendo uma tabela das brincadeiras mais conhecidas.
2- Aprendendo a brincar com as brincadeiras levantadas pela pesquisa. Convidar pais ou avós que possam estar presentes na hora do recreio para ensinar como se faz (confecção) ou como se brinca (regras).
3- Registro oral e escrito de cantigas e refrões que por acaso façam parte das brincadeiras resgatadas.
4- Introduzir musica no intervalo.
4- Organizar uma brinquedoteca, com ajuda dos alunos.
5- Introduzir o Cantinho da Leitura.
Organizando o novo recreio deve ter uma distribuição de tarefas para melhor organização das sugestões levantadas.
Desenvolvimento
Jean Piaget, para explicar o desenvolvimento intelectual, partiu da idéia que os atos biológicos são atos de adaptação ao meio físico e organizações do meio ambiente, sempre procurando manter um equilíbrio. Assim, Piaget entende que o desenvolvimento intelectual age do mesmo modo que o desenvolvimento biológico (WADSWORTH, 1996). Para Piaget, a atividade intelectual não pode ser separada do funcionamento “total” do organismo (1952 p.7) :
Do ponto de vista biológico, organização é inseparável da adaptação: Eles são dois processos complementares de um único mecanismo, sendo que o primeiro é o aspecto interno do ciclo do qual a adaptação constitui o aspecto externo.
Ainda segundo Piaget (PULASKI, 1986), a adaptação é a essência do funcionamento intelectual, assim como a essência do funcionamento biológico. É uma das tendências básicas inerentes a todas as espécies. A outra tendência é a organização. Que constitui a habilidade de integrar as estruturas físicas e psicológicas em sistemas coerentes. Ainda segundo o autor, a adaptação acontece através da organização, e assim, o organismo discrimina entre a miríade de estímulos e sensações com os quais é bombardeado e as organiza em alguma forma de estrutura. Esse processo de adaptação é então realizado sob duas operações, a assimilação e a acomodação.
Em Vygotsky é clara a interatividade do sujeito com a cultura e como esta cultura vai produzindo o sujeito social. O sujeito é um efeito da cultura se queremos aproximar, pois que o psicólogo destaca o lugar das interações sociais como espaço privilegiado de construção de sentidos e, portanto, da linguagem como criação do sujeito, a linguagem torna-se o veículo da construção da subjetividade, “através dos outros, nos tornamos nós mesmos”.
O pensamento e a linguagem são a chave para a compreensão da natureza da consciência humana. As palavras, segundo Vygotsky, desempenham um papel central no desenvolvimento do pensamento e na evolução histórica da consciência como um todo.
O que as crianças podem fazer com assistência de outros, pode ser em algum sentido um indicativo ainda melhor do seu desenvolvimento mental do que o que elas podem fazer sozinhas.
Todo aprendizado é necessariamente mediado – e isso torna o papel do ensino e do professor mais ativo e determinante, Segundo Vygotsky, ao contrário, o primeiro contato da criança com novas atividades, habilidades ou informações deve ter a participação de um adulto. Ao internalizar um procedimento, a criança “se apropria” dele, tornando-o voluntário e independente
Ressalte a importância da instituição escolar na formação do conhecimento. Para ele, a intervenção pedagógica provoca avanços que não ocorreriam espontaneamente. Ao formular o conceito de zona proximal, Vygotsky mostrou que o bom ensino é aquele que estimula a criança a atingir um nível de compreensão e habilidade que ainda não domina completamente, “puxando” dela um novo conhecimento. O psicólogo considerava ainda que todo aprendizado amplia o universo mental do aluno. O ensino de um novo conteúdo não se resume à aquisição de uma habilidade ou de um conjunto de informações, mas amplia as estruturas cognitivas da criança. Assim, por exemplo, com o domínio da escrita, o aluno adquire também capacidades de reflexão e controle do próprio funcionamento psicológico.
Para Paulo Freire, provocar mudança não bastam ferramentas adequadas, mas a paixão pela transformação, o que só é possível quando são mobilizados os sentimentos das pessoas. Por isso, os textos de Paulo Freire têm uma profunda preocupação estética. Ele tenta fazer ciência com poesia. “Che Guevara também acreditava nisso, e dizia que o verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor”, compara o especialista. Como cientista social, destaca-se sua incansável luta para explicar a realidade social e sua influência sobre a educação, despertando nas pessoas o desejo de transformá-la.
“A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tão pouco a sociedade muda”.
Para Freire, portanto, o professor deve ser capaz de vencer a arrogância e convocar os estudantes para a participação ativa das aulas, produzindo e adquirindo conhecimento com eles, permitindo que todos se tornem sujeitos de aprendizagem.
Freire argumenta que a auto-suficiência é incompatível com o diálogo. Os professores que não têm humildade, ou a perdem, não podem aproximar-se dos alunos. Não podem ser seus companheiros no que ele chama de “pronúncia de mundo”.
No livro “O Recreio na escola”, Lenea Gaelzer, diz que educar não é somente assegurar conhecimento, mas, principalmente, favorecer o desenvolvimento integral da personalidade do educando, tendo em vista a formação de um cidadão consciente, disciplinado e feliz.
O recreio não deve ser um período ocioso, ele deve ser planejado, realizado e avaliado em relação ao crescimento integral, á maturidade individual, a formação de hábitos sadios.
Fichtner observou que a inadequação do currículo escolar, no qual predominam ainda atividades puramente intelectuais, em detrimento de outras atividades praticas e criativas que permitiriam ao aluno aprender o seu mundo através da utilização de suas potencialidades corporais.
Os procedimentos adotados pelos professores são pobres quanto á estimulação sensorial e perceptomotriz da criança que, por sua própria condição sócio-famíliar, é carente de um repertório de experiências significativas para a aprendizagem e o desenvolvimento da personalidade.
Segundo Lino de Macedo, para as crianças o brincar e jogar são modos de aprender e se desenvolver. Não importa que não saibam disso. Ao fazerem essas atividades, elas vivem experiências fundamentais.
Através dos jogos e brincadeiras no recreio, as crianças aprendem a respeitar regras, dividir espaço e tempo das atividades, dialogar com os colegas e aprendem a cuidar de si e dos amigos.
Lino de Macedo diz que “Através do lúdico também se aprendem a brincar a divertir, que são qualidades da criança”. Quando brincamos de casinha ou de professor, construímos nossas hipóteses sobre estes conteúdos. A criança aprende e se desenvolve através dessas suposições e assim vão construindo sua personalidade.
Quando um programa de recreio direcionado for levado para escola, propiciará aos alunos um lazer produtivo sem correrias e gritarias pelo pátio, fazendo-os conhecer uma maneira nova de brincar estimulando a boa convivência e a socialização entre eles.
Para Tizuko Morchila Kishimoto, especialista em educação infantil, a criança necessita dos estímulos lúdicos, pois quando os jogos e as brincadeiras são desenvolvidas na criança, o jogo tem efeito positivo na esfera cognitiva, social e moral.
Sabemos que é possível ao ser humano adquirir e construir o saber brincando, pois aprendemos a conviver, a ganhar ou perder, a esperar nossa vez e lidamos melhor com possíveis frustrações.
Vários estudos comprovam que o desenvolvimento infantil é um processo que depende das experiências anteriores das crianças, do ambiente em que vive e de suas relações com esse ambiente. Deve-se considerá-la como um sujeito em desenvolvimento que explora as situações e fórmula significados, assumindo ações.
Para Huizinga, este pensador, é no jogo e pelo jogo que a civilização surge e se desenvolve. Mais do que isso, “o jogo é fato mais antigo que a cultura”. Dito de outra maneira, “a cultura surge sob a forma de jogo”. Para ele, o jogo é mais do que um fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico, o jogo “é uma função significante, isto é, encerra um determinado sentido”.
No jogo, verificam-se todas as características lúdicas: ordem, tensão, movimento, mudança, solenidade, ritmo e entusiasmo. Em que pese serem estas características marcadamente estéticas e em que pese o fato de que o jogo, enquanto tal, esteja posto para além do domínio do bem e do mal, “o elemento de tensão lhe confere um certo valor ético, na medida em que são postas à prova as qualidades do jogador: sua força e tenacidade, sua habilidade e coragem e, igualmente, suas capacidades espirituais, sua lealdade”. No jogo, não existe possibilidade para a manifestação de quaisquer ceticismos. Nele, o jogador, “apesar de seu ardente desejo de ganhar, deve sempre obedecer às regras do jogo”.
A rigor, pois, a civilização pode ser vista como um jogo, governado por certas regras, e a verdadeira civilização exige também o espírito esportivo, ou seja, a capacidade de jogar conforme as regras combinadas.
A recreação (lúdico) é uma ocorrência de todos os tempos, é parte integrante da vida de todo ser humano, mas também é um problema que surge e deve ser estudado e orientado como um dos aspectos fundamentais da estrutura social.
Huizinga, afirma que, “brincadeira e aprendizagem são consideradas ações com finalidades bastante diferentes e não podem habitar o mesmo espaço e tempo. Isto não está certo, o professor é quem cria oportunidades para que o Brincar aconteça, sem atrapalhar as aulas. São os recreios, os momentos livres”.
Referencial Teórico
•Lev Semionovitch Vygotsky
Vygotsky nasceu em 1896 na Bielo-Rússia,. Nasceu no mesmo ano que Piaget (coincidência?!), mas viveu muitíssimo menos, pois morreu de tuberculose em 1934, antes de completar 38 anos.
Vygotsky enfatizava o processo histórico-social e o papel da linguagem no desenvolvimento do indivíduo. Sua questão central é a aquisição de conhecimentos pela interação do sujeito com o meio. Para o teórico, o sujeito é interativo, pois adquire conhecimentos a partir de relações intra e interpessoais e de troca com o meio, a partir de um processo denominado mediação.
Considera o aprendizado um processo externo e independente e que não se envolve ativamente no desenvolvimento da criança, e importante criar situações estímulos auxiliares ou “artificiais” e que podem ser alteradas pela ação humana.
•Jean Piaget
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, 1896 e faleceu em Genebra em 17 de setembro de 1980. Estudou a evolução do pensamento até a adolescência, procurando entender os mecanismos mentais que o indivíduo utiliza para captar o mundo.
A criança é concebida como um ser dinâmico, que a todo o momento interage com a realidade, operando ativamente com objetos e pessoas. Essa interação com o ambiente faz com que construa estrutura mentais e adquira maneiras de fazê-las funcionar. O eixo central, portanto, é a interação organismo-meio e essa interação acontece através de dois processos simultâneos: a organização interna e a adaptação ao meio, funções exercidas pelo organismo ao longo da vida.
•Paulo Reglus Neves Freire
Paulo Freire nasceu em 1921, no Recife, Pernambuco, faleceu em 02 de maio 1997, São Paulo.
Para Freire a participação do sujeito e a diversidade do mundo são os elementos fundamentais no processo educacional que permite a caracterização de uma abordagem democrática na educação. O processo de construção pedagógica do sujeito refere-se a uma ação de diálogo e uma conscientização que pode ser revertida a uma prática social. Uma prática educativa difundida na ação dialógica do sujeito implica na noção de cidadania democrática, pela quais os agentes são responsáveis, capazes de participar politicamente na sociedade.
•KISHIMOTO, Tizuko Morchida
Chefe do departamento de Metodologia de ensino e educação Comparada da Faculdade de Educação da USP, Coordenadora do Laboratório de Brinquedos e Materiais Pedagógicos da mesma instituição e Professora Livre Docente, responsável por cursos de pós graduação e especialização na área da Educação Infantil.
Realiza pesquisas e publica livros e artigos sobre Educação Infantil, brinquedos e brincadeiras.
•MACEDO,Lino de.
Graduado em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto, Mestrado Psicologia Social e Experimental pela Universidade De São Paulo, doutorado em Ciências-Pscicologias pela USP com ênfase na teoria de Piaget. Atualmente é professor titular da USP. Atuando principalmente no Construtivismo, Educação, Jogos, Avaliação e Psicologia.
•Johan Huizinga
Professor e historiador holandês, especialista em línguas e literaturas hindus e estudioso das transformações culturais como da mentalidade medieval, e também da crise moral, intelectual e estética que acompanhou a crise política do período pré-nazista. Estudou nas universidades de Groningen e Leipzig e lecionou literatura em Haarlem, Groningen e Leiden. Reitor da Universidade de Leiden quando os alemães ocuparam os Países Baixos (1942), foi detido e confinado em De Steeg, perto de Arnhem, onde morreu. Conhecido por seus trabalhos sobre a última etapa da Idade Média, a Reforma e o Renascimento, durante sua atividade como intelectual construiu uma reputação por toda a Europa. Considerado o fundador da moderna história cultural, sua obra mais conhecida, é Homo Ludens (1938), onde propunha um novo modelo de civilização, sua principal contribuição social.
Referencial Bibliográfico
Obras conhecidas e não lidas.
•VYGOTSKY, L. – Pensamento e linguagem. SP, Martins Fontes, 1988.
•VYGOTSKY, Leontiev, Luria. – Psicologia e Pedagogia. Lisboa, Estampa, 1977.
• VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes, 1991. 4.ed..
•PIAGET, Jean. Para onde vai à educação? 7° ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.
•FREIRE, João B. Educação de corpo inteiro. Teoria e prática da Educação Física. São Paulo, Scipione, 1989.
•FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 43. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005, p. 66-7. Ibidem, p. 74.
•KISHIMOTO,Tizuko Morchida. Jogo, Brinquedo, Brincadeira e a Educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993
•KISHIMOTO,Tizuko Morchida. O brincar e suas teorias.São Paulo: Pioneira1998
•MACEDO, Lino. – Aprender Com Jogos e Situação Problema. Artmed Editora. 1º Edição -2000
•MACEDO,Lino de – artigo; Revista Nova escola , São Paulo, 2008
•HUIZINGA,Johan .Homo Ludens: O Jogo Como Elemento Da Cultura. Perspectiva; 4 edição.



Autor: Marcia Ignacio Feitosa

Fonte: Pedagogia ao Pé da Letra

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Recreio: Brincar do que quiser ou do que for possível?


Imagem: Ricardo Ferrari

Recreio, intervalo de aula ou hora de parque: independentemente do nome adotado, é o espaço de tempo previsto na rotina escolar para os alunos lancharem, brincarem e conversarem, normalmente sem o acompanhamento do professor, que, por sua vez, também aproveita para conversar e descansar. Em geral, alunos e professores passam o recreio em locais distintos: professores na sala dos professores e alunos na área externa da escola. Dessa forma, os professores não observam, não mediam nem imaginam o que ocorre nesse momento. Tal função cabe ao bedel, monitor ou inspetor de alunos.
Para a maioria dos alunos, o recreio é o momento mais aguardado durante o período em que estão na escola. É a hora do lazer, da livre escolha, de fazer o que se tiver vontade. Será? O recreio escolar possibilita a livre escolha ou determina e direciona a escolha?
Na verdade, a “livre escolha” do aluno é delimitada por algumas variáveis:
  • Tempo: qual a duração do recreio? O que é possível fazer nesse intervalo de tempo?

  • Espaço físico: a céu aberto? Coberto? Isso condiciona as escolhas às condições climáticas. Cimentado ou gramado? Emparedado ou arborizado? As possibilidades de escolha são influenciadas por essas características.

  • Organização do espaço: se o espaço é vazio, as opções dos alunos ficam entre vivências corporais que envolvem correr, perseguir, lutar, empurrar e, por vezes, terminam em conflitos. Vozes experientes diziam que “brincadeiras de mão não acabam bem!” Se no espaço há materiais, eles mediam as relações e estabelecem algumas regras. Por exemplo: se há uma bola, o jogo pode ser futebol e formam-se dois times, com uma meta estabelecida: fazer gol. Se há uma corda, uma dupla bate para uma ou mais crianças pularem. Tocou na corda dá a vez para outra criança.

  • Pessoas que interagem nesse espaço-tempo: o recreio é organizado por faixa etária? Todas as turmas podem interagir nesse momento? É possível escolher com quem brincar ou conversar? Irmãos podem ficar juntos? Como as crianças se relacionam nessa hora? Como elas se relacionam com os bedéis ou responsáveis pelo recreio?
Portanto, as possibilidades de escolha dos alunos no recreio são determinadas pela relação entre os fatores tempo, espaço, organização espacial e relações interpessoais.
Estudo de caso
Em uma assessoria prestada a uma escola do Estado de São Paulo, a equipe de direção e coordenação apontou a necessidade de reduzir o tempo de recreio das crianças (de 7 a 10 anos) de 20 minutos para 10 minutos, pois elas brigavam muito, ofendiam umas às outras (situações de bullying) e destruíam a escola. Após o recreio o chão do pátio ficava forrado de papéis de lanche e de balas; nos banheiros havia bolinhas de papel higiênico grudadas no teto (para quem não sabe, a técnica é bem simples: basta fazer a bolinha, molhar e arremessar no teto que gruda!), as portas eram quebradas, os trincos retirados. Ou seja, os alunos arrumavam o que fazer com as escassas alternativas que lhes estavam disponíveis.
Quando as alternativas para brincar são mais atraentes, ninguém vai “perder tempo” bagunçando o banheiro.
A equipe de assessoras questionou se as crianças tinham alternativas para brincar, o que rapidamente foi negado, pois, caso isso acontecesse, não tomariam o lanche. Com base nesse quadro, foi proposto aos coordenadores que repensassem possibilidades de brincadeiras para as crianças. Estes conversaram com os alunos sobre os desejos que tinham para esse momento. Com base nisso, foram disponibilizadas bolas, cordas, bambolês, mesa de pingue-pongue (raquete e bolinha), mais cestos de lixo foram espalhados pela área do pátio e ampliou-se o tempo de recreio de 20 para 30 minutos, sendo 10 para o lanche. A escola começou a ficar mais limpa e mais cuidada.
Alguns conflitos surgiram, todos relacionados a discussões acerca de regras de jogos que não eram respeitadas ou a disputas por materiais e por espaços de brincadeiras. Foi necessário organizar um rodízio das quadras e pátios, a fim de que todos pudessem usufruir das alternativas propostas. A mediação dos conflitos concentrava-se no aspecto educacional e não mais na supervisão das ações dos meninos e meninas que “destruíam” a escola. Os professores relataram às assessoras que, agora, os alunos voltavam cansados e suados do recreio, mas que conseguiam se concentrar mais rapidamente em comparação ao período em que não brincavam. As energias eram canalizadas para as brincadeiras e depois para a realização de propostas dirigidas de aprendizagem.
A intervenção realizada nessa escola possibilitou a reflexão por parte da equipe de coordenação e de professores acerca da necessidade de se oferecer escolhas para os alunos no recreio.
As escolas precisam entender o recreio como um tempo importante, que necessita ser planejado, no sentido de possibilitar escolhas diversificadas, experiências corporais e interpessoais, e condizentes com a faixa etária dos alunos. A brincadeira perdeu espaço em nossa sociedade e as escolas devem ficar atentas para garantir o direito de toda criança brincar. O recreio é, sem dúvida alguma, o intervalo de tempo em que ela pode fazer isso.




POR TELMA SCOTT, Pedagoga, pós-graduada em Educação.

Extraído do livro “BRINCAR, um baú de possibilidades”, 2009.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Os jogos e as brincadeiras populares: ressignificando a cultura infantil na escola e no fazer pedagógico


Imagem: Internet




Na infância, as inúmeras maneiras de brincar da criança traduzem através de atividades recreativas, os seus gestos e atividades corporais de como a mesma vai compreendendo o mundo. Essas ações permitem que a criança reconheça, pouco a pouco, seu ritmo, sua força, suas limitações e a consequência dessas ações em seu meio. 

A ludicidade exerce função fundamental no desenvolvimento da criança, contribuindo na formação de sua personalidade e na ampliação de seus conhecimentos, pois através dela encontram-se formas de realizar-se como pessoa e como cidadão integrado na sociedade. É o cognitivo e afetivo caminhando juntos. 


Nesse processo de desenvolvimento, o professor exerce um poder fundamental na construção desse conhecimento, pois não adianta ter materiais e espaço físico para promover suas atividades de jogos e brincadeiras, se sua intervenção não provocar desafios e questionamentos, que auxiliem o crescimento da criança. 


Este profissional necessita de uma formação, que estimule a auto-reflexão e a construção de caminhos alternativos, qualificando sua forma de atuação. Dessa maneira o professor poderá transformar a sala de aula em um ambiente que proporcione mais alegria e motivação a criança, utilizando a brincadeira como instrumento pedagógico, visando situações que favoreçam o ensino - aprendizagem. 

Este trabalho tem por objetivo analisar na literatura a concepção sobre recreação entendida de modo crítico e dialógico na perspectiva da problematização de situações. Tendo por finalidade a tradução da relação entre os jogos e brincadeiras populares e o ensino de qualidade na escola no seu fazer pedagógico. Desta forma, cabe à escola enquanto instituição formadora, a responsabilidade de provocar, preparar, incentivar e encorajar ações pedagógicas que facilitem o resgate histórico-cultural, objetivando as expectativas e necessidades dos alunos, admitindo um saber que permita um processo educacional mais amplo. Neste panorama, analisaremos estudos já realizados nas últimas décadas, sobre jogos e brincadeiras populares, que tornam possível alongar o tempo e o espaço pedagógico, as relações coletivas e o trato com o conhecimento no interior da escola. Uma vivência lúdica de diferentes linguagens por meio da cultura infantil, permite a criança expressar-se e experimentar diversas situações que proporcionam o aprendizado. Este conhecimento adquirido propicia ao aluno o diálogo competente com o meio social, aprender a respeitar para ser respeitado, a escutar para ser escutado, a estabelecer limites e regras e reivindicar direitos.


Assim a escola executa sua missão na construção da cidadania. A utilização dos jogos e brincadeiras resgatam uma memória lúdica infantil, que promovem uma sensação de prazer, auxiliando no processo ensino-aprendizagem e favorecendo o relacionamento social através do brincar, consequentemente o lúdico produz no ambiente escolar novos saberes que melhoram a qualidade de vida. 

Os jogos e as brincadeiras populares em consonância com novos paradigmas: cooperação, diversidade, tolerância, integração e inclusão, proporcionam a criança um melhor aproveitamento na relação ensino-aprendizagem. 


Através do lúdico e de uma vivência cultural, a criança pode viver uma realidade desejada que por muitas vezes não lhe é oferecida, devido as características representadas na infância, tais como: fantasia, criatividade e imaginação. É no brincar que a criança enxerga e constrói seu mundo, manifestando aquilo que encontra dificuldade em expor com palavras. Nessa abordagem, o corpo foi entendido como o eixo principal das atividades recreativas realizadas, pois a criança precisa viver e pensar corporalmente, e não se julgar um eu proprietário de um corpo,pois não se trata apenas de um objeto ou instrumento, mas uma forma de viver corporalmente. 


Conforme FRANÇA(1999), “Assim, é possível reconhecer o valor educacional da educação, onde a expressão corporal é mais uma forma de linguagem, propiciando ampliar formas de leitura do cotidiano e tornado o sujeito mais capaz de comunicar-se. Esse fantástico acervo cultural deve constituir um saber a ser sistematicamente tratado nas práticas escolares, favorecendo a identificação de estilos e hábitos, a partir de indicadores da cultura, do ambiente de vida, identificando os fatores motivacionais referentes às práticas e o desenvolvimento do sentido e significado de regras e normas, tanto no trato dos conteúdos tematizados, como por exemplo o jogo popular, a dança e as brincadeiras, quanto nas relações sociais mais amplas, como por exemplo a família, a escola, o trabalho, propiciando-lhes a oportunidade de questionar o existente e tentar modelos alternativos”. 


A brincadeira cria caminhos alternativos para alcançar um coletivo abrangente na sociedade. É no brincar que as crianças se deparam com situações importantes, tais como: imaginação, medo e fantasia. Todavia, este brincar apresenta-se ameaçado pela indústria predadora dos brinquedos infantis e a tecnologia dos vídeos games, televisão, celulares, computadores e outros artifícios eletrônicos. 


Conforme BRUHNS(1989), “a sociedade pós-industrial é caracterizada pela substituição do raciocínio humano, pelos poderes eletrônicos da computação e a conquista da informática que alcançou o mundo lúdico, influenciando de forma generalizada todas as classes sociais tendo como alvo as crianças que são as principais consumidoras deste tipo de brinquedos produzidos industrialmente.


É No brincar que a criança enxerga e constrói seu mundo, manifestando aquilo que encontra dificuldade em expor com palavras. Através de desejos íntimos, dos problemas e de suas ansiedades é que a criança se comporta no meio social e é na brincadeira que a criança aprende que, quando se perde no jogo, o mundo não acaba. 

Com a preocupação de proteger seus filhos, os pais acabam se tornando reféns dessa indústria virtual, na intenção de resguardar ou preservar a criança mais tempo dentro de casa. 


Os acontecimentos do dia a dia determinam esse tipo de comportamento, que se justifica através de estatísticas de ordem social como a criminalidade, as drogas e a violência, que resultam no afastamento das crianças das ruas e praças por exemplo. Devido à insegurança o espaço de lazer da criança acaba delimitando-se apenas ao ambiente escolar e familiar, por uma questão de risco. Outro fator relevante é o avanço da construção civil, que torna o espaço urbano cada vez mais escasso para brincadeiras infantis. 


É uma pena, pois por meio das brincadeiras de rua conhecida atualmente como jogos populares, as crianças ganham um saber cultural popular, que facilitam um melhor entendimento da sociedade em que vivem. 


Isto posto, os jogos populares na infância apresentam enorme potencial educativo no quadro de uma Educação Física sob o enfoque multicultural. 


O brincar através da cultura popular infantil constitui caminhos alternativos para romper a barreira da tecnologia, na busca da compreensão da multiplicidade cultural da criança, que em cada gesto solidifica sua cultura e história. 


“(...) os jogos e as brincadeiras sempre tiveram um grande poder sobre as crianças. Com eles as crianças tem capacidade de raciocínio, criatividade e principalmente, liberdade para poder se expressar, soltar a toda a sua energia” SÁ(1995). 


Por isso, é primordial que o jogo e a brincadeira popular seja resgatado e garantido na escola e na comunidade extra-escolar, valorizando uma fonte de manifestações culturais lúdicas com um amplo conteúdo de entendimento que oportunizem as crianças vivências próprias. 


Analisando, ainda, os estudos expostos por SÄ (1995) percebemos que, “Toda criança deveria viver no mundo da ludicidade, ou seja poder se manifestar por inteiro. É preciso que a criança sinta prazer naquilo que faz e não fazer por fazer ou porque está recebendo uma ordem. O processo lúdico esta a dispor da criança para ela poder usufruir de toda a sua capacidade de criação.” 


Com estas contemplações estamos colaborando para a discussão sobre a temática, instigando os profissionais da área a uma revisão no seu procedimento pedagógico, afim de quebrar a rotina resgatando os jogos e brincadeiras populares para dentro da escola, assim como do interior dela para fora. 


No futuro a criança perceberá que durante seu processo de desenvolvimento, uma mesma pessoa pode exercer papeis sociais distintos, variando conforme situação social envolvida. 



CONCLUSÕES 

Conforme foi visto neste artigo, vários estudiosos afirmam a importância do brincar, por isso proporcione a criança a oportunidade de se divertir com jogos e brincadeiras populares, esta é uma necessidade de todo ser humano. A ludicidade é essencial na vida das crianças, pois através do brincar acontece a interação com o outro e consigo, a possibilidade de criar e recriar, de estabelecer normas e limites acerca do mundo, o que resulta na busca incessante do aprender. 


Neste processo de construção do desenvolvimento da criança, conclui-se a importância do papel mediador do professor, na relação ensino - aprendizagem. Este deve está consciente da significância do lúdico na formação do individuo, pois elementos essenciais devem ser observados através desta prática, tais como: a forma como a criança interage com o outro, suas emoções, aspecto psicomotor, sua linguística e seus valores morais. 


Por fim, compreende-se que o lúdico é uma ferramenta fundamental no trabalho do professor e de extrema significância no ambiente escolar, visando o desenvolvimento e construção do conhecimento da criança, assim como a reinvenção de novos caminhos alternativos na mudança do comportamento humano. 





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

BRUHNS, Heloisa. Lazer, trabalho e tempo: uma discussão a partir de Thompson e de Grazia. Campinas: DEL-FEF-UNICAMP, 1999. (mimeo) 

FRANÇA, Tereza Luiza de. Educação para e pelo lazer. In: MARCELINO, Nelson Carvalho. (Org.). Lúdico, educação e educação física. Ijuí : Ed. UNIJUí, 1999. Coleção Educação Física. 


MARCELINO, Nelson Carvalho. Pedagogia da Animação. Campinas-SP: Papirus,1990. 

SÁ, Raquel Estela. O brincar de ontem e o brincar de hoje: suas diferenças e implicações para as aulas de Educação Física. Trabalho Monográfico apresentado à UFSC, 1995. 

GARCIA, Rose Maria Reis & MARQUES, Lilian Argentina Braga. Brincadeiras cantadas. Porto Alegre: Kuarup, 1988. 

MURCIA, Ruan Antônio Moreno. Aprendizagem através do jogo. Porto Alegre: Artmed, 2005. 

SANTIN, Silvino. Educação Física: uma abordagem filosófica da corporeidade. Ijuí: UNUJUÍ Ed., 1987.




Autor: Rafael Rodrigues Wanderley -  UFPE 
Orientadora: Profa. Dra. Tereza França - UFPE 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Ensino e mudança: um passeio pelo futuro


Imagem: Internet


 “Os analfabetos do futuro não serão aqueles que não sabem ler ou escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender, e reaprender.” Alvin Toffler


É nas escolas que as novas gerações poderão aprender a criar o futuro que desejam. Afinal, só temos aprendido o passado. Que tal aprendermos também o futuro?

Olhando para trás e percorrendo os últimos vinte e cinco anos num flashback imaginativo, dá para ter ideia da magnitude das mudanças que hoje vivemos e que irão continuar mais rápido daqui em diante.

Vinte e cinco anos atrás a Coreia começava a competir com os EUA na indústria de transporte, informação e comunicação; não existia a União Europeia, nem a Organização Mundial do Comércio, nem o Tribunal Penal Internacional. Não tínhamos a AIDS, os transgênicos de toda ordem, ônibus espaciais, telefones celulares, internet… Casamento gay era sacrilégio, ensino à distância em tempo real era cena de ficção científica, consumidores colaborando na criação/produção de produtos que ele mesmo viria a utilizar, quem poderia imaginar? Grupos de aprendizagem coletiva, centros de pesquisa abertos a cidadãos comuns, livros eletrônicos Kindles descartando livros de papel, música digital disponível free nas máquinas de todos os tamanhos, a consciência de que a vida pode ter fim com o aquecimento global, tudo além da imaginação. A ovelha Dolly, o ataque às torres gêmeas e a invasão Wikileaks seriam fruto de imaginações delirantes.

No campo do ensino, as tecnologias aplicadas nas escolas eram utilizadas mais para melhorar a qualidade do conteúdo do que para potencializar a capacidade de aprendizagem. Tempos do ábaco, de atenção farta, da tabuada na cola, do estojo com cheiro de madeira, não voltam mais.

Se as tendências atuais tendem a se acelerar, vai acontecer o que o inventor-futurista Ray Kurzweill tem propagado: esse século irá assistir a mudanças tecnológicas numa escala 80 vezes maior do que no século 20. Isso sem falar no mutante quadro geopolítico do mundo que já começa a revelar uma reorganização das forças de poder do norte ao sul.

Diante desse novo mundo, o que as escolas e centros de aprendizagem podem fazer para que o choque do futuro que o Alvin Toffler profetizou nos anos 80 não seja tão intenso? Como podemos tirar proveito dessas mudanças?

Aqui alguns caminhos que percorro nesse passeio pelo futuro, que pelo que parece, já está batendo na porta.


Estudar para o futuro

Como aprender a conviver com as mudanças? Como aprender a implementá-las? As nossas escolas preparam pessoas para o que virá? Certamente não. As mudanças pelas quais passamos constantemente só poderão ser destiladas em soluções se formos capazes de nos orientar para o futuro.

Um dos aspectos que definem uma sociedade é sua atitude em relação ao tempo. O Brasil, eterno país do futuro, atuando na contramão do seu destino programado, tem se orientado excessivamente pelo presente e se mobilizado sempre para o curto prazo, o que nos torna uma sociedade atrofiada pelo imediatismo. Esse nosso insistente apego pelo presente retroalimenta nosso comportamento e nos limita na capacidade de criar um projeto de nação que fortaleça nossa autoestima, defina nossa identidade e nos eleve multidimensionalmente como referência mundial.

É nos espaços da escola que essa mudança temporal de olhar o mundo deverá ocorrer, principalmente no ensino fundamental que tem perdido toda a riqueza imaginativa inerente às crianças.

As escolas precisam reexaminar o horizonte temporal que aplica no seu sistema de aprendizagem e mudar as perspectivas abordadas nas salas de aula, já que desde nossa tenra infância, nunca aprendemos o futuro nas salas de aula. Muito pelo contrário: sempre aprendemos o passado e fomos punidos por ele, caso não conseguíssemos memorizar infinitos números e datas.

Nossos cérebros foram sempre demandados a processar o que já foi e nunca o que será ou que poderá ser. Se em vez de só sermos avaliados pela capacidade de registrar o passado, engessando nosso potencial criativo, fôssemos avaliados pela capacidade que temos de imaginar mundos possíveis, o que poderia acontecer? Como estaríamos enfrentando os desafios atuais? Certamente com muito mais proatividade e segurança.

As escolas de ontem e de hoje sempre estiveram presas nesse lapso temporal. Diante dessa macrotransição histórica, precisam conectar-se com o que irá acontecer, com o que poderá acontecer e com o que poderão ajudar a fazer acontecer, preparando essa nova geração a dar sentido ao seu futuro, ao nosso futuro comum.


Novas realidades cognitivas

Estudos revelam que a exposição constante a estímulos digitais, como games, equipamentos móveis, sobreposição de imagens, pode mudar o cérebro e a maneira como ele percebe as coisas e processa a informação. Tudo indica que os cérebros dessa geração que Don Tapscott (Wikinomics) denomina de “geração digital” têm mudado.

Diante disso, ao formar profissionais para o futuro, nas escolas o aluno não pode continuar sendo passivo, restrito a apenas olhar, ouvir, memorizar. A nova proposta pedagógica sustentada pela interatividade supõe participação, cooperação, bidirecionalidade e pluralidade de conexões entre conhecimento, informação e atores participativos. O ambiente 2.0 veio expandir todas as múltiplas possibilidades na dança informativa multimídia dos hiperlinks, wikis, twitters, redes sociais diversas, criando espaços para que as escolas ocupem e façam os alunos criarem ideias a partir de imagens, inventando e reinventando tudo o que pode tocar, ver, cheirar, ouvir, respondendo a estímulos multissensoriais, transformando e construindo tudo aquilo que está ao seu alcance.

A escola deve ser esse espaço das infinitas possibilidades para deixá-las todas ao alcance dos alunos que precisam desenhar o mundo que desejam a partir de um novo imaginário e de uma nova realidade cognitiva.


Aprender a desaprender

A vez do especialista consagrado pela era industrial está chegando ao fim. A era do conhecimento requer perfis latitudinais, multifuncionais, policompetentes. Nessa era de mudanças velozes é preciso sair das amarras da especialidade e abrir as portas dos silos de conhecimento, abrindo-se para o novo. Tempo de desaprender e reaprender à luz de um novo olhar sobre a mesma realidade. Como especialistas não somos mais nada do que guardiães de um saber sem validade, resultado de um diploma também com prazo de validade.

Os principais desafios e multicrises que definem esse novo milênio (violência, globalização da inflação, escassez da água, exclusão social, volatilidade da moeda, alta no preço dos alimentos, aquecimento global e tantas outras) requerem soluções que transcendam disciplinas individuais em suas categorias (por exemplo, engenharia, geografia, psicologia, matemática, economia). Os novos programas nas escolas devem se esforçar para descobrir o que há de comum entre essas disciplinas e criar ambientes favoráveis para que os alunos identifiquem caminhos comuns que levem a uma vida sustentável. “Sustentabilidade XXI, educar e inovar sob uma nova consciência” é uma obra com visões inovadoras assinada pelo empresário Rodrigo Loures; ele se pauta no princípio da “educação na sustentabilidade” como passo evolutivo da educação ambiental, integrando todos os sistemas que afetam a vida no planeta.


A escola que vem de dentro

Afogados que estamos pelas afluências, sobras, excessos e obsolescências materiais e simbólicas, estamos sedentos de silêncio, vazio e interioridade. Sobre a interioridade, nenhuma escola trata. Como se estivéssemos vivendo apenas um lado da realidade e jogando fora todo o potencial criativo. Afinal de contas, somos completos. A única espécie com capacidade de enfrentar o mundo exterior e o mundo interior ao mesmo tempo.

Estamos tentando cuidar do mundo exterior, do botox ao aquecimento global. Mas o que estamos fazendo com relação ao mundo interior? Esse mundo no qual se ancora a nossa existência, ao qual recorremos para tomar decisões e imaginar o que queremos não está na constelação didática das escolas.

Esse deslocamento do subjetivo e do interior nos tem afastado da fonte inesgotável de riqueza que vem de dentro e no qual encontramos um infinito número de possibilidades, como se ainda não tivéssemos aberto a Caixa de Pandora de nosso destino.

O caminho está na incorporação do imaginário e do intangível em cada disciplina que compõe as grades curriculares e deixar fluir o que falta: a imaginação, o sonho, o tácito, o intocável, o não-visto. Na obra recém-lançada “Educação para a Era da Sustentabilidade”, Arnoldo de Hoyos, professor de Estudos do Futuro da PUC-SP nos inspira com visões sobre educação e sustentabilidade e nos coloca em contato com pensadores como Alceu de Amoroso Lima, que escreveu em 1954 “Meditação sobre o mundo interior”, do qual foi pinçada essa linda reflexão: “O homem completo, isto é, o homem normal é aquele que vive interiormente sua vida exterior e não sepulta em si, egoisticamente, sua vida interior”.

Viver a vida em sua intensidade e plenitude requer ir além da materialidade e alcançar valores intangíveis tão sagrados na agenda dos processos criativos. Por isso, temos que antes de tudo, instalar uma escola permanente dentro de nós, tonificar nossos sentidos, flácidos pelos modelos, construir nossos castelos e alicerçá-los de valores universais, estruturando a base dos ensinamentos que irão nos fortalecer e capacitar para viver a vida, não como ela é, mas como desejamos que seja.


Estudo do Projeto Millennium − Futuros Possíveis para a Educação e Aprendizagem 2030

O Ministério da Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos da Coreia do Sul pediu à rede de pesquisadores do Projeto Millennium, rede internacional que estuda o futuro de grandes temas da humanidade, uma avaliação de possibilidades futuras no campo da educação e aprendizagem visualizando o horizonte de 2030 como a ancoragem de planos de longo prazo.

Quais são algumas das possibilidades de ensino e aprendizagem para o ano 2030? O que podemos fazer hoje para tirar proveito dessas novas possibilidades? Já que novas ideias podem levar a caminhos inusitados, é prudente perguntar o que de negativo e o que de positivo poderia delas surgir?

Para responder a estas perguntas, os pesquisadores recolheram mundialmente as visões de 213 especialistas em educação e áreas correlatas. Essas são algumas das possibilidades voltadas ao mundo high-tech para a educação em 2030:

• Programas para melhorar a inteligência coletiva

• Conhecimento e aprendizagem just-in-time

• Educação individualizada

• Uso de simulações

• Avaliação contínua dos processos de aprendizagem individual para prevenir instabilidade emocional e doenças mentais

• Nutrição individualizada para melhor desenvolvimento cognitivo

• Inteligência geneticamente aumentada

• Uso de simulações globais on-line como ferramentas de pesquisa social

• Utilização de comunicações públicas para ajudar na busca do conhecimento

• Dispositivos de inteligência artificial portáteis

• Mapeamento completo das sinapses humanas para mapear os processos de aprendizagem

• Mecanismos para manter cérebros adultos saudáveis por períodos mais longos

• Química para o aprimoramento do cérebro

• Web 17.0 – integração de dados, análises, discussões, fóruns numa estrutura organizada e semântica. A Web Semântica que utiliza realidade virtual e contém um sub-sistema inteligente

• Sistemas integrados de aprendizagem ao longo da vida

• Programas que visam à eliminação dos preconceitos e ódio

• E-teaching: sistemas eletrônicos de inteligência para professores

• Computadores com inteligência extra-humana

• Micróbios artificiais para aumentar a inteligência

• O ensino da moral e a aplicação de novas métricas (inteligência emocional e inteligência espiritual)

• O cérebro global: o desenvolvimento de um conhecimento coletivo a caminho da formação de um cérebro global e de novos estágios da consciência humana

• Estudos inter-religiosos e inter-culturais

• O uso crescente de jogos, incluindo jogos on-line para o aprendizado

• Unidades modulares de conhecimento: ferramentas de gestão para que cada aluno possa baixar o que precisa

Todos esses futuros possíveis servem como sinalizadores de caminhos estratégicos que levem a um novo sistema de ensino e aprendizagem. Provavelmente muitos desses avanços não estejam disponíveis para todos em 2030, mantendo ainda as lacunas no conhecimento e nas capacidades e talentos. Questões de custo, interesses políticos e resistências de grupos de interesse, e, principalmente, o medo das instituições vigentes de perderem o poder instalado frente às novas capacidades educacionais. Esses são aspectos intangíveis que o estudo não ilustra com evidência e pressupostos de uma economia sustentável, que só poderá ser realidade através da formação de novas lideranças que nasçam de um novo sistema de educação.




Fonte: Rosa Alegria (Revista da ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing, volume 18, edição 5, set/out 2011)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A educação começa em casa

Imagem: Internet


Com licença e, por favor, deixem-me falar de EDUCAÇÃO no momento em que estamos nos acostumando, cada vez mais, com a falta dela! As notícias e as cenas que assistimos, diariamente, ao vivo ou pela TV sobre os comportamentos inadequados de crianças e jovens, nas ruas, parquinhos, cinemas, shopping e escolas, isto é, a nossa volta, dá-nos a sensação de que há muito tempo já passamos dos limites. É criança que chuta, morde, xinga, grita com pai e mãe por qualquer motivo que vou ficando cada vez mais abismada (basta assistir a Supernany)! Na escola não é diferente. A falta da educação começa na creche, perpassa a pré-escola, o ensino fundamental e chega aos marmanjões do ensino médio e superior.

Os adolescentes quase não interagem com os mais velhos, ocupados demais com seus umbigos. Nos seus bandos, usam um dialeto que passa longe da língua portuguesa. Entre si falam palavrões a toda hora expressando, com eles, qualquer sentimento seja de raiva ou amor: É FO...; PORR...; VAI TOMAR; CARA... Já perceberam que na tentativa de nos comunicar com eles, suas falas se resumem a uma frase de cinco palavras, sendo três de palavrões?! E aí eu me pergunto o que está acontecendo? Cadê a educação? De quem é a culpa? Que tipo de gente vai conviver com os nossos netos, que espero, sejam EDUCADOS?

O comportamento humano tem como característica a padronização – observa e copia, isto é, repete o comportamento adotado em novas situações, assim como tende a ser imitado pelos que o cercam. A gratificação ou a punição decorrente das suas diversas ações, (o que é considerado certo ou errado na sua comunidade), leva à padronização e à formação de usos e costumes, e, ainda, à cristalização das formas de comportamento social, ou a sua institucionalização. O início desta relação – observa e copia - dá-se na família, com suas regras e normas, tão conhecidas de nós: Não gritar, não morder, não brigar, não chutar, não cuspir, não colocar o dedo no nariz. Tem que sentar na cadeira e não na mesa; tem que tomar banho; escovar os dentes; respeitar os mais velhos...

De modo que é na família que se inicia a educação da criança, ou melhor, a sua adaptação a vida na sociedade, o que quer dizer, aprender a – NÃO SE TORNAR UM SER INSUPORTÁVEL SOCIALMENTE. A família, considerada uma das mais antigas e fortes instituições sociais, destacando-se das demais, por seu caráter universal, não é só a primeira forma de vida em grupo que o ser humano experimenta, mas também serve de mediadora entre o indivíduo e a sociedade. Em conjunto com a escola, a religião, a polícia, o exército e a burocracia do estado, estabelecem as regras e os procedimentos produzidos, aceitos e sancionados pela sociedade. 

Até bem pouco tempo atrás, ao procurar a escola para matricular seus filhos, a família, tinha muito claro o que queria dela: exclusivamente o ENSINO. No entanto, ultimamente a família, que vem sofrendo profundas mudanças, transfere para a escola (lembra que é outra instituição social) TODA a responsabilidade da EDUCAÇÃO. São os conhecidos pais ausentes, que se multiplicam assustadoramente! Hoje o professor, sobrecarregado, além de ensinar todo o conteúdo, tem que ensinar bons modos, valores e dar afeto. Precisa também ser psicólogo e assistente social, isto é, cumprir um papel que não é próprio de sua formação. Isto é impossível! Vejamos o seguinte: o dia tem vinte e quatro horas (24h), a grande maioria das crianças passa apenas quatro horas (4h) ou no máximo oito (8h) horas dentro da escola e vinte (20h) ou dezesseis horas (16h) fora dela (presume-se que na família).

Esta família, que está surgindo, que transfere as suas responsabilidades de educar para a escola, deixa também os seus filhos desnorteados pela falta de limites. Sim, criança precisa de limites! É esse tipo de criança e adolescente que vai quebrando tudo a sua volta, não reconhece autoridade e não respeita ninguém, dentro e fora da escola, não cede o lugar reservado para os idosos nos coletivos, xinga o professor, espanca os colegas, fala palavrões, in-fer-ni-za o ambiente escolar, que, por sua intrínseca natureza, deveria ser educativo. Sem o apoio dos pais de seus alunos, diretores e professores perdem a autoridade, vivendo, cotidianamente, situações que beiram a barbárie. 

Na tentativa de colocar um pouco de ordem, entra, neste cenário, outra instituição social (justiça), com as tais medidas disciplinares ou medidas sócio-educativas, com a intenção de garantir o respeito cívico e inalienável da convivência professor-aluno. Para nós educadores, esse fato novo - que na atual conjuntura faz-se necessário - desnuda e revela a fragilidade da escola e a falta de respeito com os seus profissionais. Essa intervenção do poder judiciário na escola soa como se fosse necessário que meu vizinho entrasse em minha casa, para me auxiliar a cumprir com os meus deveres familiares e a minha missão de esposa e mãe, garantindo a ordem! 

O fato é que os atos de indisciplina precisam, urgentemente, voltar a serem resolvidos no âmbito do próprio sistema educacional e com a parceria da família. O encaminhamento de algumas questões ao sistema da Justiça da Infância e Juventude (aí incluído o Conselho Tutelar), só deveria ocorrer, depois de esgotados TODOS os recursos disciplinares escolares e familiares possíveis. Diante disto e relembrando o que nossos pais aprenderam dos seus pais e repassaram para nós - é de pequeno que se torce o pepino... ou... Educação vem do berço. EDUCAÇÃO COMEÇA EM CASA! 


 
Autora: Drª Ângela Maria Costa

Professora do curso de Pedagogia da UFMS;
Coordenadora do Núcleo Regional da Aliança pela Infância – Campo Grande/MS


Fonte; Aliança pela Infância