ENCONTROS DE ARTE EDUCAÇÃO - FEVEREIRO

ENCONTROS DE ARTE EDUCAÇÃO

"NARRATIVAS LÚDICAS DA INFÂNCIA - A música e o ritmo, O corpo e a dança, A escuta e o brincar"

EM BREVE!!!

EDUCADORES, PAIS, ARTISTAS, ESTUDANTES E TODOS OS INTERESSADOS EM ARTE, EDUCAÇÃO E LUDICIDADE ESTÃO CONVIDADOS!


Abordando a importância do reconhecimento do brincar como linguagem própria e fundamental da criança e meio por excelência para a construção de conhecimentos sobre si, sobre a relação com o outro e as coisas do mundo. Serão apresentadas aos participantes as contribuições da brincadeira para o desenvolvimento integral, bem como questões presentes na sociedade contemporânea que impedem a concretização de uma infância plena e permeada pela ludicidade.

Para mais informações acesse: www.ateliegiramundo.com ou envie uma mensagem para contato@ateliegiramundo.com

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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Infância e descoberta: conhecendo a linguagem da arte, indo de encontro aos estereótipos

Imagem: Candido Portinari



As crianças começam a ter contato com a arte na educação infantil. Nesta fase, elas sonham acordadas, inventam e descobrem coisas, se aventuram em um mundo desconhecido, não têm medo de criar. Pensando neste contexto, venho destacar a importância de o professor aproveitar esta fase de seus alunos e disponibilizar recursos para aprimorar o conhecimento deles e aguçar sua curiosidade e vontade de desvendar, já que é assim, que os alunos ampliarão seu vocabulário visual e darão asas a sua imaginação. Assim, escrevo este artigo, para levantar a importância de o professor agitar-se no movimento de mudanças e descobertas, argumentando e criticando, movimentando-se no sentido de oportunizar ao seu aluno um melhor ambiente de aprendizagem. Além disso, venho levantar como outro ponto essencial em minha discussão, a questão dos estereótipos, muito difundidos no ambiente escolar, destacando a importância de se pensar sobre eles, e sua influência sobre os alunos, principalmente na educação infantil, em que a criança começa a criar conceitos e relações novas a respeito do que aprende, não devendo ter como base modelos prontos. Desta forma, levanto a importância de o professor utilizar os jogos e o lúdico para chamar a atenção de seus alunos para o que ele está apresentando e, sem utilizar estereótipos, possibilitá-los a utilizar a imaginação para fazer arte.






A infância é uma época de descobertas, aventuras e magia para as crianças. É nesta fase, durante a educação infantil, que elas terão seus primeiros contatos com as linguagens da arte, cabendo ao professor valorizar os conhecimentos e a criatividade que elas trazem para a sala de aula e compreender a importância existente no ato de elas explorarem, pesquisarem e criarem coisas novas. O que realmente importa a elas é o brincar aprendendo, é esperar curiosamente pelo inesperado, estar envolvida com o lúdico e com a possibilidade de sonhar, pois assim, ela aprende se sentindo mais realizada e mais feliz.


Em virtude disso, venho levantar e destacar a importância de se pensar a questão dos estereótipos, conceitos padronizados, na educação infantil; já que é nesta fase que a criança começa a criar conceitos e relações novas a respeito do que aprende, não devendo assim, sofrer influência destes, pois poderá levar consigo sempre a idéia de que os desenhos bonitos são os estereotipados, e não querer realizar seus próprios traços.


Além disso, devemos considerar ainda, que a arte e seus elementos estão presentes em nosso dia-a-dia; não devendo ser vista como meio de oportunizar prazer às crianças, para trabalhar a coordenação motora ou para enfeitar as salas de aulas, mas ao contrário, deve-se trabalhar a arte como contribuição para a construção do conhecimento sensível da criança, já que contribui também, para a educação do olhar desta, e ajuda a ampliar suas leituras de mundo.


Esses são alguns dos motivos pelos quais venho escrever este artigo, para levantar a importância de o professor agitar-se no movimento de mudanças e descobertas, assim como, argumentar, criticar e fazer-se presente nas mudanças, movimentando-se no sentido de oportunizar ao aluno um melhor ambiente de trabalho e aprendizagem, ajudando-o a ampliar suas visões de mundo e a não restringir suas idéias a estereótipos.



REFERENCIAL TEÓRICO



As crianças sentem prazer em desenhar, pintar, rabiscar, cortar e criar; é assim que elas se expressam. Elas utilizam sua imaginação para inventar ou transformar desenhos, criando sempre o inusitado, o novo, o diferente.


As crianças desvelam-se e revelam-se por meio de manifestações expressivas, cabendo as instituições de educação infantil e aos professores, oportunizar a elas momentos de criação, compreensão, imaginação e ressignificação. Sendo fundamental que o professor observe os limites da criança na arte de desenhar, e compreenda também, a importância de a criança criar seu desenho e titulá-lo livremente, sem se basear em modelos pré-determinados, evitando assim, que esses modelos prontos interfiram no imaginário da criança.


Além disso, sabemos que é na medida em que a criança vai fazendo novas descobertas e tendo contato com novos materiais, que ela vai estruturando seu vocabulário visual. Sendo de extrema importância, que o professor disponibilize materiais diversos como: argila, papel, isopor, tinta, sucata, e deixe que ela descubra as diversas utilidades que eles têm, tendo liberdade para inventar coisas que para o professor muitas vezes não têm significado, mas que para ela faz muito sentido.


Segundo Cunha (1999, p. 10), "para que as crianças tenham possibilidades de desenvolverem-se na área expressiva, é imprescindível que o adulto rompa com seus próprios estereótipos (...)" , assim, o professor tem que fazer parte do processo de descoberta da criança, desprezando os estereótipos e abrindo a mente para novas idéias e novos materiais, não só entendendo, mas vivenciando as linguagens da arte com a criança.


Sabendo também da importância de não somente contemplar a produção do aluno, como a leitura desta produção e de outras imagens, reforço a idéia de ampliar as possibilidades do que é apresentado a eles, diversificando sempre e tentando não se prender a estereótipos. Estes, por sua vez, fazem com que muitos alunos acabem seguindo-os por pensarem que assim terão seus trabalhos aceitos mais facilmente pelos professores, mas na verdade, o que ocorre é que com os estereótipos as crianças aos poucos desaprendam o seu próprio desenho, perdendo a confiança nos seus traços e começando a considerá-los "feios".


Mas se sabemos que os estereótipos são negativos, por que eles ainda são tão presentes em nosso cotidiano? A resposta, acredito eu, está no fato de que a maioria das vezes os estereótipos são basicamente os mesmos, e de tão reproduzidos e utilizados, se tornam largamente difundidos e aceitos. Assim acontece na escola, onde percebe-se que os estereótipos estão muito presentes, muitas vezes em formas de desenhos perfeitos que enfeitam as salas, aparecendo como pretexto de tornar o ambiente mais atraente e interessante para a criança.


Pensando agora em nossas vivências, sabemos que nós vemos o que compreendemos e o que temos condições de entender. Assim, para que realmente possamos ver um objeto, devemos percebê-lo em suas relações com o sistema simbólico que lhe dê significado. O significado, por sua vez, está relacionado ao sentido que se dá a situação, pois estabelecemos relações do que estamos vendo com as nossas experiências. Entrelaça-se informações do contexto sociocultural em que a situação ocorreu e os conhecimentos do leitor (sua imaginação, suas inferências).


De acordo com Pillotto, o sentido e o significado que as crianças dão aos objetos, às situações e às relações passam pela impressão que elas têm do mundo, de seu contexto histórico e cultural, dos afetos, das relações inter e intrapessoais (PILLOTTO, 2007, p. 23).


Pensando nisso, percebe-se que não só as crianças, mas todos nós fazemos ligações do que estamos vendo com: as experiências que já vivenciamos, nossas lembranças, nossas interpretações, fantasias e até mesmo, com os últimos acontecimentos que presenciamos. Assim, se o contexto, as informações, as vivências de cada leitor estão presentes ao procurar dar um sentido para a imagem, observa-se que as crianças, por exemplo, geralmente fazem relações de uma imagem com algum personagem de história ou programa infantil que elas conhecem.


Ostetto (2007, p. 35-36) diz que "não é mesmo novidade dizermos que é pelas diferentes experiências com/no mundo sensível que a criança vai se apropriando de formas mais complexas de ver e ler esse mesmo mundo sentido." Pensando assim, reforço a idéia de que a criança faz sua interpretação em função de suas informações e dos seus interesses, tendo como fundamento as suas vivências.


Outro elemento importante nas interpretações e relações dos alunos é a imaginação, já que ela se alimenta das experiências vividas por cada um e é responsável pela construção da cultura. Assim, para facilitar esta imaginação e criação dos alunos, cabe ao professor modificar a disposição dos objetos da sala de aula, possibilitando ao aluno situações diferenciadas que enriqueçam a sua produção e fazendo assim, com que ele veja as coisas de formas variadas, já que essas mudanças possibilitarão à criança visões diversificadas, não fazendo com que ela fixe-se em um único modelo de sala de aula. Assim, o professor não estará influenciando o aluno, mas ao contrário, instigando-o a ter novas visões.


Segundo Pillotto, a organização do espaço poderia compreender pequenos cantos com objetos e situações diferenciadas, mobiliários postos de forma a possibilitar flexibilidade para trocas de lado, formas, para o acréscimo de outros objetos, e a retirada de outros etc. (PILLOTTO, 2007, p. 20).


Além disso, deve-se levar em conta que as crianças se apropriam de novas formas de compreender o mundo de acordo com o que vivenciam. Elas inventam, contam histórias, descobrem coisas, fazem poesia. Essa última, por sua vez, termina no momento em que o professor interfere na criação e descoberta da criança, dando-lhes por exemplo, folhas mimeografadas com desenhos prontos e perfeitos, sem permitir-lhes criar, influenciando assim, em seu processo imaginário. É fundamental ainda, trazer a poesia novamente para a escola, para que a criança possa criar realidades, fundar mundos, revelar o desconhecido, pintar imagens, modelar formas e construir pontes.


Portanto, pensar nas ações que possibilitem às crianças experiências com as linguagens da arte, ajudará a desenvolver nelas a imaginação, a percepção, a intuição, a emoção e a criação. Segundo Pillotto (2007, p. 25), "a imaginação nasce do interesse, do entusiasmo, da nossa capacidade de nos relacionar. Por isso as instituições educacionais precisam estar atentas ao currículo, propondo ações voltadas ao interesse das crianças." Assim, é importante utilizar o lúdico, o brinquedo e o jogo como elementos fundamentais no cotidiano das crianças, já que seu fazer criativo está sempre ligado às suas experiências de vida visando novas perspectivas e novas aprendizagens.



CONSIDERAÇÕES FINAIS



É necessário começar a educar o olhar da criança desde a educação infantil, possibilitando atividades de leitura para que além do fascínio das cores, formas e ritmos, ela possa compreender e analisar como a linguagem visual se estrutura, e assim, possa pensar criticamente sobre as imagens.


Além disso, deve-se fazer com que a escola vá além das vivências artísticas com as quais está acostumada. Ela deve ajudar a criança a conhecer outras épocas históricas, outras culturas, outras formas de expressão, cabendo ao professor fazer com que a criança compreenda o mundo em que está inserida, situando-a em diferentes contextos sócio-culturais.


Cabe ao professor também, aguçar os sentidos de seus alunos apresentando-lhes novos materiais e levantando questões sobre eles. Lembrando sempre, que muitas vezes o limite da criança é o próprio corpo e o alcance de sua mão será o que delimitará o espaço de atuação gráfico-plástica e, que para a manipulação destes distintos materiais, ela possivelmente irá se sujar.


Outro ponto muito importante também, é que o educador mantenha uma linha de trabalho, ligando uma aula à outra e explorando o inusitado junto com seu aluno, se aventurando a aprender caminhos novos e reaprendendo a utilizar a imaginação.


Além disso, reforço ainda, a idéia de que os desenhos estereotipados, empobrecem a percepção e a imaginação da criança, não permitindo que ela desenvolva naturalmente seu potencial. Assim, nós, como educadores, devemos oferecer maior espaço para a expressão de nossos alunos, negando os estereótipos, já que somos contra a acomodação e reprodução e acreditamos no poder de criatividade e individualidade de cada um.


Assim, acredito que, para que a linguagem da arte venha se fazer presente na educação infantil, é necessário ligá-la ao lúdico, ao jogo, ao brincar, ao criar, ao imaginar, ao perceber, possibilitando a criança a construção não só do conhecimento cognitivo, mas principalmente, do sensível. Penso ainda, que um elemento importantíssimo na construção do imaginário infantil é o fato de o professor não se impor ao processo de criação da criança, devendo se libertar ao máximo dos estereótipos que tanto as influenciam e permitindo que estas possam inventar, descobrir e sonhar livremente, colocando no papel as idéias que estão em seu pensamento, dando asas a sua imaginação.




REFERÊNCIAS



CUNHA, Susana Rangel Vieira da. Pintando, bordando, rasgando, desenhando e melecando na educação infantil. In: Cor, som e movimento: a expressão plástica, musical e dramática no cotidiano da criança. Porto Alegre: Mediação, 1999. p. 07-36.


PILOTTO, Silvia Sell Duarte. As linguagens da ate no contexto da educação infantil. In: PILOTTO, Silva Sell Duarte (org.). Linguagens da arte na infância. Joinvile-SC: UNIVILLE, 2007. p. 17-28.


OSTETTO, Luciana Esmeralda. Entre a prosa e a poesia: fazeres, saberes e conhecimento na educação infantil. In: PILOTTO, Silva Sell Duarte (org.). Linguagens da arte na infância. Joinvile-SC: UNIVILLE, 2007. p. 29-45.





Bruna Pereira Alves - Docente do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Maria

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Por Uma Arte de Contar Histórias




Imagem: Internet



"Ah, como é importante na formação de qualquer criança ouvir muitas histórias... Escutar histórias é o início da aprendizagem para ser um leitor e ser leitor é ter todo um caminho de descobertas e de compreensão do mundo, absolutamente infinito...

O primeiro contato da criança com um texto é feito, em geral, oralmente. É pela voz da mãe e do pai, contando contos de fada, histórias inventadas tendo a gente como personagem, narrativas de quando eles eram crianças e tanta, tanta coisa mais...


Ler histórias para as crianças, sempre, sempre... É suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, e encontrar muitas ideias para solucionar questões - como os personagens fizeram... - é estimular para desenhar, para musicar, para teatralizar, para brincar... Afinal, tudo pode nascer de um texto.


O significado de escutar histórias é tão amplo... É uma possibilidade de descobrir o mundo imenso dos conflitos, das dificuldades, dos impasses, das soluções, que todos atravessamos e vivemos, de um jeito ou de outro, através dos problemas que vão sendo defrontados, enfrentados (ou não), resolvidos (ou não) pelos personagens de cada história (cada um a seu modo...) E assim esclarecer melhor os nossos ou encontrar um caminho possível para a resolução deles...


É ouvindo histórias que se pode sentir (também) emoções importantes como: a tristeza, a raiva, a irritação, o medo, a alegria, o pavor, a impotência, a insegurança e tantas outras mais, e viver profundamente isso tudo que as narrativas provocam e suscitam em quem as ouve ou as lê, com toda a amplitude, significância e verdade que cada uma delas faz (ou não) brotar... 

É através de uma história que se pode descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outras regras, outra ética, outra visão... É ficar sabendo história, geografia, filosofia, direito, política, sociologia, antropologia, etc... sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula... Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer, e passa a ser didáctica, que é um outro departamento (não tão preocupado em abrir todas as comportas da compreensão do mundo)...



Ouvir e ler histórias é também desenvolver todo o potencial crítico da criança.É formar a opinião, é ir formulando os próprios critérios, é começar a amar um autor, um género, uma ideia e daí ir seguindo por essa trilha e ir encontrando outros e novos valores (que talvez façam redobrar o amor pelo autor ou viver uma decepção... Mas isto tudo faz parte da vida).

Para contar uma história, é preciso saber como se faz... Afinal, nela se descobrem palavras novas, se depara com a música e com a sonoridade das frases, dos nomes... se capta o ritmo, a cadência do conto, fluindo como uma canção... E para isso, quem conta tem que criar o clima de envolvimento, de encanto... Saber dar as pausas, o tempo para o imaginário de cada criança construir seu cenário, visualizar os seus monstros, criar os seus dragões, adentrar pela sua floresta, vestir a princesa com a roupa que está inventando, pensar na cara do rei... e tantas coisas mais...

Se a criança não lê é porque não lhe estão apontando caminhos para o desfrute de bons e belos textos... Que existem (tantos) e são fáceis de achar... Literatura é arte, literatura é prazer... Que a escola englobe esse lado e deixe as cobranças didácticas para os departamentos devidos...
E nesse sentido, ela faz parte do leque da educação artística e não da língua portuguesa... Uma das actividades mais fundantes, mais significativas, mais abrangentes e mais suscitadoras de tantas outras, é a que decorre do ouvir e do ler uma boa história... "




Fanny Abramovich-In: Literatura infantil - gostosuras e bobices, Ed. Scipione.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A Importância dos jogos para o desenvolvimento psicológico da criança


 Imagem: Internet






Este estudo traz a importância de atividades lúdicas exercida na escola, para trabalhar com a criança o aspecto psicológico. Ensinando a mesma a interagir com o próximo, respeitar regras, desenvolver a imaginação, cooperação e com isso promover uma boa auto-estima. Fazendo com que aprenda de forma simples e natural a resolver problemas, pensar, criar e desenvolver o senso crítico. Através da melhoria do entendimento sobre o efeito que os jogos podem trazer, enriquecendo interações humanas.


Introdução


O artigo analisa a importância do jogo e o brincar no aspecto psicológico da criança. O jogo é uma ferramenta que contribui na formação corporal, afetivo e cognitivo, por ter uma característica lúdica se torna mais atrativa e eficiente em seu desenvolvimento, preparando sua inteligência e caráter, tendo conhecimento de quantidade e de espaço. O objetivo deste trabalho é fomentar a importância das atividades lúdicas no processo psicológico das crianças, promoverem o respeito pelas pessoas e pelas regras.


Por intermédio do jogo e do brincar a criança expressa suas fantasias, seus desejos e suas experiências reais de um modo simbólico, onde a imaginação e a criatividade fluem por conta da ludicidade. A metodologia desse trabalho foi por base de revisão bibliográfica. 


Desenvolvimento


Lúdico do latim ludus significa jogo, segundo Nunes (1998).Segundo Huizinga (1995) o jogo pode ser considerado como uma atividade livre, conscientemente tomada como “não-séria” e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total.


É uma atividade desligada de todo e qualquer interesse material, com a qual não se pode obter lucro, praticada dentro de limites espaciais e temporais próprios, segundo uma certa ordem e certas regras. Promove a formação de grupos sociais com tendências a rodearem-se de segredo e a sublinharem sua diferença em relação ao resto do mundo por meio de disfarces ou outros meios semelhantes.

Para Platão e outros pensadores da Grécia antiga era importante que as crianças em seus primeiros anos de vida e ambos os sexos deveriam ser educados com jogos educativos e deveria começar aos sete anos.

 Era contra os jogos competitivos, pois não valorizavam o caráter e a personalidade fazendo com que as crianças acabassem tendo uma formação danificada. (NUNES DE ALMEIDA, 1998).Para os egípcios, maias, romanos, os jogos eram passados para os jovens de geração a geração pelos mais velhos onde aprenderiam através de seus ensinamentos valores e conhecimento para as normas sociais do padrão de vida. ‘Com a ascensão do cristianismo, os jogos foram perdendo seu valor, pois eram considerados profanos e imorais e sem nenhuma significação. ’ (NUNES ALMEIDA, 1998).No brincar, a criança lida com sua realidade interior e sua tradição livre da realidade exterior. (MARCONDES, MARINA, 1994) Segundo Marcondes Marina (1994), o brincar com o seu próprio corpo significa descobrir a si mesmo.


O que para uma criança é uma festa, pois começa a inventar joguinhos, como fechar e abrir os olhos como se estivesse achando algo ou escondendo-se.A criança que brinca livremente do seu jeito, a sua maneira acaba transmitindo seus sentimentos, idéias, fantasias.Brincar é também raciocinar, descobrir, persistir e perseverar; aprender a perder percebendo que haverá novas oportunidades para ganhar; esforçar-se, ter paciência, não desistindo facilmente. Brincar é viver criativamente no mundo.


Ter prazer em brincar é ter prazer em viver; (MARCONDES ,MARINA,1994)Brincar sem imposições de regras rígidas e impostas torna o ato de brincar mais espontâneo e acaba que a criança por seu próprio pensar, cria, recria e modifica. Essa vasta possibilidade que o jogo possibilita no momento do brincar proporciona o momento da aprendizagem aguçando sua criatividade, seu pensar e seu modo de agir com o meio.Segundo Marcondes Marina (1994), brincar para criança pequena é fonte de autodescoberta, prazer e crescimento.Segundo Piaget (1975b), os jogos estão diretamente ligados ao desenvolvimento mental da infância; tanto a aprendizagem quanto as atividade lúdicas constituem uma assimilação do real. Almeida (1995) diz que a brincadeira simboliza a relação pensamento-ação da criança, e, sendo assim, constitui-se provavelmente na matriz formas de expressão da linguagem (gestual, falada e escrita).


Os jogos têm um papel no desenvolvimento psicomotor e no processo de aprendizado de domino do social da criança, através dos jogos é possível exercitar os processos mentais e o desenvolvimento da linguagem e hábitos sociais. (DINELLO, 1984 AUPD SERAPIÃO, JOÃO, 2004).O jogo é, portanto, sob as suas duas formas essenciais de exercício sensório-motor e de simbolismo, uma assimilação do real à atividade própria, fornecendo a esta seu alimento necessário e transformando o real em função de suas necessidades múltiplas do eu. (PIAGET APUD SERAPIÃO, JOÃO, 2004).


Através de jogos é possível que a criança tenha uma dimensão de tempo (antes - depois), quantidade (pouco - muito), compreensão da seqüência (inicio-fim). (HARTLEY, 1971).Para Pettry (1988) o jogo é uma atividade própria da criança e esta centrada no prazer que proporciona a ela. Brincadeiras com o corpo em movimento auxiliam as crianças a compreender e a relacionar conceitos de: perto, longe, atrás, mais perto, em cima, na frente, ou seja, ela sustenta o que Hartley já havia dito sobre a importância da criança brincar ou jogar.


 É possível desenvolver relacionamentos, pois o ato de brincar, jogar é necessário que haja uma interação, pois assim o aprendizado torna-se mais eficaz para ambas as crianças, pois a troca de conhecimento é vasta.


Bijou (1978) faz uma distinção entre o jogo estruturado e o livre (espontâneo), onde o jogo estruturado é aquele em que a criança se engaja em um determinado ambiente onde os matérias, instruções, ajudas implícitas e explicitas são feitas para ajudarem a criança a alcançar seu objetivo, ou seja é induzida na forma ‘certa’ de brincar e de chegar ao destino desejado da brincadeira. Já no jogo livre (espontâneo) é onde o objetivo e o brinquedo são escolhidos naturalmente pela criança, para Piaget sua importância a esse tipo de jogo é incentivado e motivador no processo da aprendizagem, já que este dá a criança uma razão própria que faz exercer de maneira significativa sua inteligência e sua necessidade de investigação ( PIAGET, 1994, apud GIOCA, MARIA INEZ, 2001).


Segundo o Referencial Curricular Nacional (1998) a criança precisa brincar, ter prazer e alegria para crescer, precisa do jogo como forma de equilíbrio entre ela e o mundo e através do lúdico a criança desenvolve. Segundo Gilles (1998), o jogo se inscreve num sistema de significações que nos leva, por exemplo, a interpretar como brincar, em função da imagem que temos dessa atividade.


É a construção do conhecimento, principalmente, nos períodos sensório motor e pré-operatório. Agindo sobre os objetos, as crianças, desde pequenas estruturam seu espaço, seu tempo, desenvolvem a noção de casualidade chegando a representação e, finalmente a lógica (PIAGET, 1994 apud GIOCA, MARIA INEZ, 2001).


Trabalhando o imaginário Segundo Gallahue (2008) a criança através do jogo trabalha o imaginário, joga como se tal coisa fosse o que não é, como se estivesse em tal sitio onde não está, como se visse tal paisagem que não vê. As coisas no jogo não são o que são, mas como se fossem outra coisa. E as outras crianças que entram no jogo não são o que são, mas como se fossem outras crianças, incorporando personagens. A linguagem do jogo é a do modo condicional: isto seria uma casa, tu serias a cozinheira, eu seria a mãe e, um pouco depois, todas aquelas coisas já o são. Na sua imaginação, a criança forjou uma nova realidade.


Segundo Samulski (2005) o jogo é o melhor caminho que encontra para mostrar a sua personalidade. O pai que queira saber como é o seu filho, que o deixe jogar e, respeitando o seu jogo, observe-o como é.


Se preferir os jogos de composição ou os que se desmancham, daí poderá deduzir o seu espírito de construção ou de conquista, se preferir os de invenção ou os de análise, poderá deduzir uma tendência para a vida ativa ou para a especulação; se preferir os jogos sossegados ou os violentos poderá deduzir a tendência para a vida contemplativa ou ativa; se joga com ordem ou desordenadamente, se é constante nos seus jogos ou se os varia a cada momento, se prefere jogar acompanhado ou quer jogar sozinho, se jogando oferece a vitória ou a retém se manda ou obedece. Através do jogo passa toda a psicologia da criança; e a personalidade do adulto na hora do trabalho ou do convívio social, é ainda o reflexo da personalidade que demonstrou com os seus jogos quando era menino.


Conclusão


Concluímos que através dos jogos as crianças desenvolvam um melhor relacionamento com outras crianças e com adultos e por meio dos jogos poderem interagir com o meio em que estão inseridas lhes proporcionando um autoconhecimento de si próprias tendo vista que essas descobertas as fascinam, pois um mundo novo é inserido e descoberto.





Autor/fonte:
ALMEIDA, Cássia Santos; LIMA, Tamiris; MENDONÇA, Paulo Marconi

Educação Física, Faculdade Integrada do Ceará







Referências Bibliográficas


BROUGÈRE, Gilles: A criança e a cultura lúdica; 19 de novembro de 1998 ARTIGOS; http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-25551998000200007&script=sci_arttext&tlng=en. GIOCA, Maria Inez: Monografia; O jogo e a aprendizagem na criança de 0 a 6 anos, Universidade da Amazônia, 2001 MARCHI, Wanderley Júnior: JOGO, ESPORTE E SOCIEDADE: considerações preliminares para uma análise correlacional  MARCONDES, Marina Machado: Brinquedo-sucata e a criança: a importância do brincar: atividades e materiais, Publicado por Edições Loyola, 2001.


 Nunes, Paulo de Almeida: Educação lúdica - o prazer de estudar técnicas e jogos pedagógicos. São Paulo: Edições Loyola, 1998. SERAPIÃO; João de Aguiar: Educação Inclusiva: jogos para o ensino de conceitos; Publicado por Editora Papirus Ltda, 2004. GALLAHUE,David  L. Compreendendo o desenvolvimento motor de bebês,crianças,adolescentes e adultos, São Paulo- SP – Brasil, Ed. Phorte, 2005. MURCIA,Juan Antônio Moreno. Aprendizagem através dos jogos, Porto Alegre- RS –Brasil, Ed. Artmed, 2005. CATUNGA,Ricardo. Brincar,criar,vivenciar na escola, Rio de Janeiro- RJ - Brasil,Ed. Sprint, 2005.





Fonte: A Importância dos jogos para o desenvolvimento psicológico da criança 


http://www.joguinhosdemenino.com/blog-dos-meninos/a-importancia-dos-jogos-para-o-desenvolvimento-psicologico-da-crianca#ixzz2c4FJdx1S

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A antiga arte de contar histórias


Imagem: Internet




Nada concentra mais a mente do que a certeza de que se vai ser executado na manhã seguinte.


Talvez não seja coisa de genoma, mas podemos garantir que contar e ouvir histórias são coisas que fazem parte da natureza humana. Histórias, em primeiro lugar, representam um antídoto contra a ansiedade em nós despertada pelas interrogações que todas as culturas se fazem sobre o universo e sobre a existência. Para os povos ditos primitivos, fenômenos naturais como a aurora, o crepúsculo, as chuvas (sem falar em catástrofes) envolvem um elemento de mistério para o qual o mito é a resposta. Mito: na linguagem comum, o termo tem uma conotação que às vezes envolve fama e mistério (o mito Greta Garbo é um exemplo ilustrativo), mas, mais freqüentemente, significa mentira, lorota; aliás, mitômano é um mentiroso contumaz. Já os estudiosos do mito, que incluem nomes como os de Ernest Cassirer, Frazer, Durkheim, Lévi-Strauss, vêem-no de forma diferente e muito mais significativa. O mito é uma narrativa ficcional, sim, freqüentemente envolvendo personagens sobrenaturais, mas que, sendo estória, é vista como História, como algo que realmente aconteceu num passado distante (in illo tempore) e que proporciona uma explicação para os fenômenos do universo em que vivemos: o mito, disse Malinovski, é um equivalente da ciência. Já Freud chamou a atenção para a semelhança entre mito e sonho, e Jung postulou que os mitos ficam embutidos no inconsciente coletivo: passam assim de geração em geração, muitas vezes associados a rituais de caráter religioso, sagrado. Nesse sentido, o mito é diferente da história folclórica, da qual a fábula é um exemplo. Mito também não é lenda, que tende a preservar uma figura do passado (um santo, um herói, um rei), um lugar, um acontecimento. Mas mitos, histórias folclóricas, lendas – a ficção em geral  – dão testemunho dessa paixão humana pela narrativa.

Falamos antes na ansiedade em relação ao universo, mas essa é apenas uma das formas de nossa ansiedade. Existem outras, como a ansiedade da separação, que tem seu início por volta dos seis meses e que se manifesta por uma reação de angústia quando a criança tem de se separar dos pais, sobretudo da mãe. Essas crianças não conseguem permanecer em um quarto sozinhas e seguem os pais por toda parte. O quadro desaparece em torno dos três anos, mas pode retornar à época de entrar na escola e acompanhar o adulto pela vida toda.

A ansiedade de separação manifesta-se sob forma de uma cena típica. É de noite; a família já jantou, já viu um pouco de tevê. É então que o pai ou a mãe volta-se para a criança com o anúncio fatídico: está na hora de ir para cama. No passado, a própria tevê encarregava-se disso por meio de um anúncio dos cobertores (claro) Parahyba. Aparecia uma criança de camisola, segurando uma vela acesa, enquanto se ouvia uma música de fundo: “Tá na hora de dormir/ não espere papai, mamãe mandar./ Um bom sono pra você/ e um alegre despertar.”.

Com ou sem anúncio, com ou sem pedagogia, está para nascer a criança que receba com alegria essa notícia, que diga algo como: “Oba, finalmente chegou a hora de dormir.”. E isso pela simples razão de que a criança será afastada dos pais e dos irmãos, terá de ir para o seu quarto e deitar na cama; a luz se apagará e ali estará o menino ou a menina, no escuro, tendo de atravessar o limiar que separa o conhecido e gratificante mundo da vigília do mundo dos sonhos, que pode ser também, e freqüentemente o é, o mundo dos pesadelos – sem falar no terror noturno, penosa situação em que a criança acorda gritando e num estado de extrema agitação motora.

Mas todo pai e toda mãe sabem que existe um antídoto para a recusa da criança: “Se você for deitar agora, eu lhe conto uma história.”. É uma proposta irrecusável. Detalhe: se em vez de contar a história a mãe ou o pai ler a história, podemos ter certeza de que naquele momento estará nascendo um futuro leitor ou leitora.

Há duas razões para que a criança se sinta confortada nessa situação. A primeira é a presença “reasseguradora”, e a voz, do pai ou da mãe. A segunda é a própria história. Histórias nos dão, senão a certeza, pelo menos a sensação de que as coisas no mundo fazem sentido, que elas têm um começo, um meio e um final – geralmente um final feliz. Aliás, para a criança, é mais importante o começo da narrativa, o clássico e excitante “era uma vez” do que o “e aí viveram felizes para sempre”. O final tradicional é mais ou menos previsível – e isso explica por que, no cinema, muitas pessoas levantam antes de o filme acabar. Pela mesma razão a criança não raro adormece antes do final da narrativa.

E isso tudo nos leva às Mil e uma noites, essa coletânea maravilhosa que, originária de narrativas do Irã, Afeganistão, Usbequistão (denominações modernas para regiões antes distantes e misteriosas), atravessou os séculos e chegou até nós por meio de numerosas traduções para línguas européias, a primeira das quais feita no século 18 por um abade francês. A mais citada, porém, é a gigantesca (16 volumes) versão de Sir Richard Burton, do século 19.

O início, e o elo condutor da obra, são bem conhecidos. Enfurecido pela infidelidade de sua esposa, o rei Shahriyar (ou Schriyar) manda matá-la e, convencido de que todas as mulheres são pérfidas, ordena a seu vizir que lhe traga uma esposa nova a cada noite. Casamentos relâmpagos, porque as coitadas são executadas ao amanhecer. Entra em cena a própria filha do vizir, a astuta Shahrazad ou Scheherazade, que se voluntariza para o matrimônio. É que ela tem um plano: mantém o soberano em suspense com suas histórias, com o que vai adiando sua execução. No final, e depois de dar à luz a três filhos, o rei fica convencido de sua inocência.

O tema das histórias varia amplamente, incluindo narrativas históricas (o califa Harun al-Rashid é um personagem freqüente), burlescas ou religiosas. Algumas, como as de Ali Babá, Aladim e Sindbad, adquiriram existência própria. Não raro um personagem conta uma história, que pode ter outra dentro dela, como aquelas bonecas russas, o que torna o conjunto ainda mais complexo e fascinante.

As histórias das Mil e uma noites começaram a ser coletadas por volta do ano 1000. O que explica seu sucesso ainda hoje, um milênio depois?
Em primeiro lugar, as próprias histórias, sempre interessantes. Mas há um elemento adicional e muito importante: Scheherazade é a precursora de algo que, sob várias formas, representaria um sucesso crescente: a narrativa seriada.

O primeiro impulso para isso foi a invenção da imprensa, que permitiu a existência do livro, do jornal, da revista – do periódico, enfim. E o periódico, por sua vez, permitiu a serialização da ficção, que chegou a seu auge no século 19, durante o qual muitos escritores populares ganhavam a vida, e às vezes faziam fortuna, escrevendo para jornais, revistas ou fascículos. Muitas das novelas de Charles Dickens foram publicadas dessa maneira. Os fascículos, impressos em Londres, eram enviados através do oceano para os Estados Unidos. Quando chegava o navio trazendo tais fascículos, multidões acorriam ao porto: gente ansiosa por saber o que tinha acontecido com a Pequena Nell. Do mesmo modo as histórias de Sherlock Holmes foram originalmente criadas por Arthur Conan Doyle para serem publicadas em série na revista The Strand. Na França, Eugène Sue era muito popular, e seu trabalho foi analisado por ninguém menos do que Karl Marx. No Brasil, o gênero recebeu a denominação de folhetim e atraiu escritores do porte de um José de Alencar. O Guarani estreou assim, coisa que é fácil de perceber na leitura do livro: os capítulos são relativamente curtos, têm aproximadamente a mesma extensão e sempre terminam com um suspense cujo evidente objetivo era fazer o leitor correr à banca no dia seguinte para acompanhar as aventuras de Peri.

O cinema aproveitou a mesma fórmula nos chamados “seriados”, filmes de aventuras, em geral de reduzido orçamento e que contavam sempre com três personagens: o mocinho, a mocinha e o bandido. O malvado bandido estava colocando o mocinho ou a mocinha ou ambos em situações de perigo – a mais clássica sendo aquela que mostra a heroína amarrada aos trilhos da ferrovia e retorcendo-se desesperada enquanto o trem se aproxima a toda a velocidade (no derradeiro segundo, o mocinho a salva). O seriado em geral tinha quinze capítulos; cada capítulo era exibido na matinê de domingo, junto com os dois filmes principais e desenhos. Exemplos famosos são Os perigos de Nyoka e As aventuras de Flash Gordon. Heróis das revistas em quadrinhos, como Super-Homem, Batman e Capitão América, também chegaram às telas em seriados. A propósito, programas radiofônicos com esses e outros heróis (no Brasil, o Sombra e o Vingador eram muito populares) tinham grande audiência.

Mas foi com a tevê que a serialização chegou a seu auge. E a forma mais popular são as novelas, conhecidas nos Estados Unidos como soap operas, porque várias eram patrocinadas por empresas produtoras de sabonete, caso da Colgate-Palmolive e da  Procter & Gamble. Essa forma televisiva atingiu o auge em 1978, quando a CBS levou ao ar Dallas, que projetou Larry Hagman e que adicionou à trama o elemento de mistério: quem matou J.R.?, era a pergunta que todos os americanos se faziam. Seguiu-se uma contrapartida brasileira: a morte de Odete Roitman era o grande mistério da novela Vale Tudo, de Gilberto Braga, exibida entre 1988 e 1989, com enorme sucesso: na noite de 6 de janeiro de 1989, em que o segredo foi finalmente desfeito, o Ibope registrou que 86% dos televisores ligados no país estavam sintonizados na Globo. Mas o gênero não era novo no Brasil. Uma das primeiras novelas a fazer sucesso era ambientada, como as Mil e uma noites, no misterioso Oriente: era O Sheik de Agadir (1966), de Gloria Magadan.  De início, predominava nas novelas um clima romântico, fantasioso e ingênuo, mas aos poucos as produções, cada vez mais cuidadas, começaram a refletir as inquietações da classe média brasileira, que forma o grande público das novelas. Paralelamente a estas, e dirigidas a uma audiência mais restrita, surgiam as séries televisivas, várias delas inspiradas em clássicos da literatura, como Os Maias, de Eça de Queirós.

Conclusão: as Mil e uma noites fizeram escola. Tivesse nascido no Brasil de agora, Scheherazade arranjaria fácil um emprego como escritora de novelas, ganhando um bom salário. Dúvida: poderia ela prescindir da ameaça do ciumento sultão? Talvez sim, mas nesse caso a pergunta se impõe: de onde tiraria inspiração para suas histórias? Disse Samuel Johnson, intelectual inglês do século 18, que nada concentra mais a mente do que a certeza de que se vai ser executado na manhã seguinte. A bela Scheherazade é uma prova disso.






Autor: Moacyr Scliar - escritor, autor de mais de 30 obras nos mais diferentes gêneros. Dentre seus trabalhos, estão A mulher que escreveu a Bíblia e Saturno nos trópicos (ed. Companhia das Letras).

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O Valor do Brinquedo no Cultivo dos Sentidos

Imagem: Ivan Cruz


“Tudo que é artificial ilude os sentidos das crianças”

A criança percebe o mundo pelos seus órgãos sensoriais: Tato, Olfato, Gustação, Visão e Audição; pelo sentido do equilíbrio, do movimento, do calor, etc.
O mundo entra nela pelos órgãos dos sentidos. E isso se dá pelo contato com a natureza, pela vivência dos elementos: ar, água, terra e fogo; pelas brincadeiras do dia-a-dia e pelos brinquedos.
Tão importante como a brincadeira o brinquedo  em si tem sua atuação: – o material de que é feito, as formas, as cores, a proporção, o volume, a superfície, o peso, etc.
Enquanto a criança vivencia os quatro elementos ela também adquire a noção de duro-mole, pesado-leve, quente-frio, alto-baixo, grande-pequeno, e assim vai se situando no mundo e fazendo uso do que o mundo proporciona.
A atividade do brincar exige um esforço interior de expressão do EU, denominado IMAGINAÇAO. Essa imaginação precisa ser alimentada, precisa ter ambiente adequado. Os brinquedos prontos não dão “asas” à imaginação.
A PERCEPÇÃO VISUAL
 A criança observa atentamente o mundo animal, vegetal, mineral e humano  com muita curiosidade.
O sentido da visão é constantemente atacado por cores fortes, berrantes, por gravuras agressivas, caricaturas de animais e pessoas. Além de ser um ataque ao sentido da visão, é também uma afronta ao sentido da beleza.
Os brinquedos ou materiais usados pelas crianças devem ter cores claras, nítidas e se possível sem tonalidades mistas.
Os brinquedos de madeira de preferência na sua cor natural. Quando pintados a cor deve ser firme, não tóxica e lavável.
A PERCEPÇÃO DA FORMA
O brinquedo quanto ao tamanho deve caber na mão da criança.
A criança  deve poder segurar o brinquedo com firmeza.
Pontas e quinas devem ser arredondadas.
A pessoa, coisa ou animal que o brinquedo representa deve ser facilmente reconhecível.
Detalhes em demasia confundem e não permitem que a fantasia da criança atue.
Evitar brinquedos com formas humanas irreais e animais com várias cabeças. Os pais devem procurar usar o bom senso.
O TAMANHO
O tamanho do brinquedo deve ser proporcional ao tamanho da criança. As bonecas devem caber em seus braços pois ela representa a(o) filha(o). Não tem sentido a boneca ser maior do que a criança.
Quanto aos blocos de madeira devem ser maiores para as crianças pequenas para facilitar o manuseio e para as crianças maiores eles já podem ter tamanhos menores. Evitar peças que podem ser engolidas.
A PERCEPÇÃO AUDITIVA
Os sons necessitam ser suaves e melódicos. Dê preferência à voz humana e carinhosa.
Procurar evitar os ruídos eletrônicos que destroem a sensibilidade auditiva causando inclusive surdez.
Observar o ruído do vento, o som das ondas do mar, o canto dos pássaros, a voz dos animais, o som das sementes dentro das vagens, do balanceio dos galhos das árvores, etc.
A PERCEPÇÃO TÁTIL
O tato deve ser educado principalmente pela roupa que a criança veste.
Roupas de algodão, lã ou até seda permitem que a pele respire ao contrário dos tecidos sintéticos.
Os brinquedos também atuam no tato da criança. Os de plástico são muito frios, de matéria morta; já os de madeira são quentes, provém de matéria viva. Os de lã natural atuam também beneficamente assim como os de pano de algodão.
A sucata deve ser cuidadosamente escolhida pois a maioria não passa de lixo.
Para o sentido do tato é essencial que a criança tenha contato com os quatro elementos da natureza (ar, água, terra e fogo) através das brincadeiras com água, barro, areia; dos diferentes materiais dos brinquedos (madeira, bambu, cascas de cocos, cabaças, sementes, conchas, sisal, algodão, lã de carneiro, tecidos de algodão, etc).
A facilidade de agarrar o brinquedo e o ‘calor’ da superfície é importante para o desenvolvimento da percepção tátil. Também é necessário que a criança brinque no chão em contato com o calor do solo se arrastando, rolando, pulando para sentir seu limite corporal através do sentido do tato.
Evitar brinquedos que não condiz com a realidade como por exemplo carros de plástico que se afundam e ferramentas que  entortam.
A PERCEPÇÃO OLFATIVA
O olfato da criança deve ser educado com os cheiros naturais como o perfume das flores, o cheiro da comida, da terra molhada pela chuva, etc.
Evitar cheiros fortes de material de limpeza e de essências que acabam por irritar a criança deixando-a incomodada e inquieta.
A VERSATILIDADE
A criança deve descobrir por si as várias possibilidades que o brinquedo oferece.
Dependendo da idade da criança um brinquedo pode ter vários usos.
A criança deve ter plena liberdade para usar sua imaginação enquanto brinca.
Quanto mais simples for o brinquedo mais possibilidade terá para estimular a criança a inventar novas brincadeiras. Blocos de madeira são excelentes para esse fim.
A bola é o brinquedo primordial devido a sua forma redonda. Quanto mais a criança brinca com ela mais desenvolve seus sentidos. A bola estimula o tato, a coordenação motora, a visão, o equilíbrio, a noção espacial e temporal.
Os panos alimentam a fantasia da criança ao construir cabanas, capas, forrando o chão da casinha, embrulhando bonecas, fazendo o rio, etc.
Um  pedaço de pau pode ser um cavalo, uma espada, uma colher, uma faca, uma pá, etc.
Caixas de madeira ou de papelão podem servir de armário, de cada, de mesa, pode ser um carro, um barco, um forno, uma cama, etc.
Procurar dar sempre um brinquedo que estimule uma ação como: empurrar, puxar, empilhar, enfileirar, encaixar, separar, comparar, agrupar etc.
O mesmo brinquedo pode já conter vários valores como o da sensação, da percepção e da função.
A DURABILIDADE
Um bom brinquedo deve durar bastante tempo. Não guardando-o mas sendo usado incansavelmente pela criança.
O brinquedo é tanto mais durável quanto melhor for a qualidade de seu material.
Dependendo da fase da criança ela o usa de um modo diferente.
Evitar brinquedos que desmontem inteirinho quando as crianças ainda são pequenas pois elas devem primeiro vivenciar o todo para depois juntas as partes.
Quebra cabeças não são adequados para crianças pequenas salvo aqueles em que as peças são grandes e as figuras saem por inteiras e não partidas.
Os brinquedos devem facilitar a criança a imitar situações rotineiras.
 CLASSIFICAÇÃO DOS BRINQUEDOS
Brinquedos de ocasião
São aqueles  que a criança brinca algumas vezes, em determinadas fases de seu desenvolvimento e depois os deixa. São divididos em três grupos:
- Brinquedos encontrados na natureza: areia, terra, água, pedrinhas, sementes, troncos, galhos, folhas, bagas e flores.
- Brinquedos que a criança acha dentro de casa: cestos de papéis, gavetas da cozinha, do quarto, do escritório; panelas e tampas, colheres, latas, caixas, panos, que também são chamados brinquedos de todos os dias.
- Brinquedos confeccionados pelas mães e/ou pelos pais: máscaras, pipas, fantasias, recortes, dobraduras, casinhas feitas com caixas de fósforo ou de sapatos, carrinhos de tocos,  cavalinhos de cabos de vassoura, bolas de meia, tricô ou crochê, bichinhos de tricô, pompons, etc
- Brinquedos duráveis: são aqueles que se tornam bens valiosos da criança ao longo dos anos: cubos de madeira, blocos de madeira, carrinhos de madeira, bichinhos de pelúcia, bonecas de pano, cavalinho de pau. Caminha e carrinho de boneca.
- Brinquedos mecânicos: são aqueles em que a própria criança os coloca em ação percebendo seu mecanismo: palhacinho que entra dentro do cone quando puxado pela vareta; boneco que faz pirueta apertando as duas varinhas; anõezinhos que martelam; bonequinho que desce a rampa dando cambalhotas; patinho que bate as asas quando puxado pela corda ; burrinho que se mexe.Caminhão que bascula.
LUGAR, TEMPO E DESCANSO PARA BRINCAR
A criança necessita de um canto só dela para brincar, onde poderá ficar algumas horas por dia, e onde seus brinquedos poderão ser guardados.
Sem uma razão urgente não se deve interromper uma criança que se encontra entretida na sua brincadeira. É desta forma que ela adquire concentração.
A criança muito pequena necessita ter sua mãe ou uma pessoa de seu convívio sempre por perto para brincar com ela, e também de poder brincar de vez em quando na sala ou noutras dependências da casa.
Como a criança aprende imitando procurar guardar os brinquedos junto com ela e criar o hábito de guardá-los sempre após brincar.
Um dos deveres que temos como adultos que cuidam de crianças é ter calma, paciência e tempo para observá-la e compreendê-la em suas necessidades e características peculiares.
SOBRE MATERIAIS DIDÁTICOS
Material didático é tudo o que traz informações e, a primeira informação didática provém do próprio material de que é feito o brinquedo.
O melhor material ainda é aquele encontrado na natureza: madeira, folhas, vagens com sementes, cabaças, água, terra, areia, pedras, bambu, conchas, sisal,etc
O meio que rodeia a criança durante as horas do dia é material didático que informa, forma e serve para seu desenvolvimento físico, emocional, mental e espiritual.
Devemos proporcionar materiais que tragam um pouco de calor para a criança que se encontra hoje num mundo de plástico. Esses materiais poderiam ser por exemplo papelão, tecidos de algodão, bolas e bonecos recheados com lã de carneiro; feltro, couro, etc.
CONSIDERAÇÕES
 Os brinquedos prontos não dão margem à imaginação pois já estão prontos, definidos, limitados. Assim também é com a televisão que substitui essa atividade interna da criança ao brincar.
O mundo moderno quer dar tudo pronto, definido e acabado para a criança porque a encara como adulto em miniatura. CRIANÇA NÃO É ADULTO.
Na idade entre dois e três anos a criança destrói antes de construir do mesmo modo que compreende antes de falar. Nesta fase também não se detém por muito tempo numa mesma brincadeira e não empresta nem divide seus brinquedos e embora brinque ao lado de outras crianças ainda não interage totalmente com elas.
Nos primeiros sete anos da criança mais importante que os brinquedos são as brincadeiras com o corpo: – no colo dos pais, serra-serra serrador.  No balanço na rede e  no balanço, o gira-gira, o trepa-trepa, a bola grande, a corrida livre,  brincadeira na água, etc.
Evitar brinquedos nocivos que induzem à violência como armas, carros de guerra, bonecos de guerra; brinquedos eletrônicos que levam a criança à inércia e à apatia.
Diante de um brinquedo devemos fazer a pergunta: ele move internamente a criança e a faz agir sobre ele ou a criança é uma mera espectadora?




Autora: Pilar Tetilla Manzano Borba

Terapeuta Ocupacional, Pedagoga Waldorf, Pós-graduada em Antroposofia na Saúde pela UNISO, Professora no curso de fundamentação em pedagogia Waldorf, Orienta berçários, creches, maternais e jardins de infância


 Fonte: Catálogo SPELENDER, Nijmegem, Suíça, 1970